Águas & estações

Confesso que não foi fácil escrever um texto sobre minha existência na Amazônia. A inspiração não vinha. Se eu fosse usar uma metáfora para explicar como é inspiração de escrever sobre minha vida aqui eu usaria — sem fazer qualquer apologia de maus tratos a animais — a imagem de um vaqueiro tentando laçar um novilho que nasceu com apenas três pernas. A todos que ainda não tentaram parece muito fácil laçar o bicho, mas como ele resolve as suas questões sobre três pernas desde que chegou, nem sabe que poderia existir uma quarta perna, e pula e se esquiva do laço com muita vontade de deixar o vaqueiro com cara de bobo. Assim são meus dias amazônicos: transbordando em assuntos para alguém nascido e crescido no interior paulista escrever, mas sem que esse alguém consiga sequer saber por onde começar.

O Lago Tefé

A cidade e o lago e nossas vidas

Mas não pense que isso tem a ver com o fato de que viver aqui seja tão ruim, ou tão bom, que a inspiração não venha. Eu atribuo isso a outro fator: o ciclo sazonal. A cheia e a seca, o inverno e o verão, os meses em que ‘chove todo dia’ e os meses em que ‘chove o dia todo’. A dinâmica da cidade muda. Mudam os peixes e as frutas na feira. Mudam os caminhos para se chegar a certos lugares de barco, e para muitos, mudam as maneiras de sair e de voltar para casa. Mudam as opções de lazer no aparecer e desaparecer de dezenas ou centenas de metros de praia de rio. No aparecer e desaparecer de plaquinhas nas casas anunciando “temos açaí” — que, diga-se de já, é comprado de litro no dia em que foi feito e é muito mais encorpado e saboroso do que a imitação congelada, açucarada e cheia de conservantes vendida mais ao sul do país. No aumento e na queda vertiginosa do preço da sapota, fruta que uma vez experimentada torna-se preferida, causando aguda ‘dor de bolso’ aos que não resistem à tentação de comprá-la fora de época, mas cujo gosto compensa cada fiapo preso nos dentes e todo tempo e dinheiro posteriormente gastos com metros de fio dental passados até nos mais remotos recônditos bucais.

As diferenças entre uma estação e outra são grandes e pequenas, permeando de cima a baixo a vida dos que aqui caminham. A Amazônia resolve apresentar a nudez de seu corpo dialogando profundamente com a dinâmica dual da vida. Dia e noite, masculino e feminino, direita e esquerda, aspirar e respirar. Sístole e diástole, pulsando o viver da floresta pelo glorioso Rio Solimões, a grande artéria do planeta. Todos os bichos que aqui vivem sentem esse pulsar. Dos peixes-boi de meia tonelada aos diminutos micuins que desaparecem dentro da coceira que provocam.

O Rei de todos os rios

Sua Majestade o Solimões

Os meses passam e eu vou aprendendo a achar beleza no superlativo das coisas. Um dia de sol é um dia de muito calor. Um rio é um lugar de muita água. Uma tempestade é um momento de muito vento. Um suco de fruta exótica é o paladar perdendo a virgindade. Uma nuvem de carapanãs é tão insuportável que dá vontade de chorar. Um corpo humano em exercício fede todos os odores que tem direito. Um sol se despedindo no horizonte filtrado de nuvens tem todas as cores que meus olhos podem desejar.

Os meses passam e eu vou aprendendo a compreender a minha relação com as coisas que me cercam. Os cachorros na rua, tão magros, cobertos de sarna, de pata quebrada por pneu de moto, me obrigam a saber, à queima-roupa, o que é que vou fazer com minha sensibilidade. As motos, numerosas, velozes, atrevidas, me obrigam a aprender a dança da travessia de rua no compasso de calçadas estreitas e semáforos ausentes do suingue regional. A música regional, ora cantando o dramalhão de um coração partido, ora cantando o êxtase da festa, da manguaça e da putaria, tão criativamente pornográfica, me obriga a decidir entre abrir concessões nas fronteiras do meu ecletismo ou simplesmente sofrer sempre que meu vizinho liga o som. Meus vizinhos, tão próximos, tão barulhentos, tão prestativos, com seus filhos empinando pipa e jogando futebol debaixo da minha varanda, me obrigam a aprender a pagar os preços e colher os frutos de viver em comunidade.

“Aurora que luta por um arrebol de cores vibrantes e ar soberano”

Os meses passam e eu vou me acostumando e rindo com a contradição de toda semana me deslocar para o paradisíaco coração da floresta, o seio da Mãe Natureza, para trabalhar, e voltar nos finais de semana para uma cidade densa e barulhenta para descansar. Com a contradição de pagar aluguel para morar em um lugar e passar a maior parte do tempo em outro. Com o contraste de beber água mineral de galão em minha casa e água de chuva onde trabalho. O contraste de poder escolher o que vou comer nas refeições dos finais de semana e de mergulhar na culinária local nos dias de trabalho com meus colegas e alunos, que, talvez por herança da cultura dos antepassados indígenas da região que viviam basicamente de mandioca e peixe, conseguem, sem problema algum, comer no almoço e no jantar exatamente o mesmo prato por vários dias. E o inacreditável que é ter acesso à internet dentro de uma casa flutuante no meio de um rio cercado de mata e mais nada e de viver completamente off-line dentro de meu apartamento na sexta cidade maior cidade do estado.

Os meses passam e eu vou desvendando o mistério das águas de setembro e março. Vivi em lugares em que durante alguns meses as árvores tinham folhas, noutros meses não. Nuns meses a luz do dia durava pouco, noutros durava muito. Nuns meses as águas eram gelo, e noutros eram rios. O março da Amazônia traz nuvens pesadas repentinas e cai tanta água sobre minha cabeça enquanto ainda caminho na rua que tenho vontade de tirar a camiseta e brincar que estou debaixo de cachoeira, porque a sensação é a mesma. Já setembro solta no meu lombo um sol mais quente que o próprio calor e uma umidade que me cozinha no vapor, uma sauna a céu aberto que me deixa totalmente ensopado no meu próprio suor, constrangido com a aguaceira de meus fundilhos que podem dar a impressão de que estou mijado. Março são águas de fora, setembro são águas de dentro, mas ambos são águas em movimento. Ricas lições.

Morada de Adão e Eva antes do episódio da maçã

Morada de Adão e Eva antes do episódio da maçã

Por isso eu posso dizer que comecei a compreender o recado só depois que minha estadia se estendeu pelas duas fases, enquanto assistia, boquiaberto, minhas resistências e rebeldias e apegos se calando para ver, surgindo no horizonte como um magnífico sol da manhã, os primeiros raios das grandes revelações que vim buscar aqui no reino do verde sem fim.

Os meses passam, o tempo passa. O vaqueiro não laça o novilho antes de entendê-lo. O vaqueiro tem seu tempo. O novilho tem seu tempo. O coração tem seu tempo. A floresta tem seu tempo.

Tempo de floresta.

The world of the green

I still remember
even the first day we met
as we already knew
there was something about each other’s own fate.
The more we met, the more we knew
that we belonged to the same path.
We knew we had the same vibration
as we came to vibrate along.
It didn’t come as a blatant blast
of the so called ‘certainties’ of the old, teen ages,
but as a seed that was planted in each other’s heart,
that would be invisible
until it started do grow stems and leaves,
but felt from the very beginning.

(And I can clearly remember
that by those ages
you were much, much more than me
fond of plants
and the world of the green.)

Nossas memórias em nossas vidas

Todas as memórias que temos são associadas a algum sentimento. Todas. Nossa mente não guarda nada que não foi sentido. E, claro, nós temos muitas, muitas memórias. Elas servem para nos lembrar de que nós estamos sentindo o tempo todo. Sentir é constatar-se vivo. É contemplar o espetáculo que é estar vivo. Esse é o papel de nossas memórias em nossas vidas.

Nossa grande mãe

Por sobre o manto verde infinito
No olhar dos micos vigiando o mato
Bubuia de um jacaré pacato
Ou nas cores de um pássaro bonito

Nas águas a sumir no horizonte
No súbito levante dos biguás
No eclodir de novos tracajás
Tamanha é a riqueza dessa fonte

Na nuvem cinza de um céu de inverno
No desabotoar da tempestade
É água que cai com tanta vontade
No coração da Mãe, o cio eterno

Na nuvem de libélulas da aurora
No urro dos guaribas, poesia
São peixes na aquarela da alegria
Na graça com que a garça os devora

Está no vento forte e no banzeiro
Está no dente do maracajá
Está na boca azeda de araçá
Está no ar do macaco de cheiro

E mesmo no inseto carniceiro
Picada de cada carapanã
Irônico beijinho na manhã
Pra dele se lembrar o dia inteiro

No lento movimento da preguiça
E o movimento da preguiça é lento
No vento, aproveita o movimento
Que na simplicidade, enfeitiça

Pirarucu, bodó e embaúba
Cupuaçu, pitomba, bacuri
Tucunaré, uxi, apuruí
Taperebá, aruanã, munguba

São nomes que ecoam uma voz
De gente que soube viver a paz
Presente nessas matas ancestrais
Onde o querer de Deus encontra a foz

Em tudo isso está Deus que habita
Orquestra do existir, dança divina
Onde a Mãe Natureza é maestrina
Sempre a cantar a vida infinita

Começar uma grande revolução

Por aqui as relações entre as pessoas parecem ser mais íntimas.  Por uma série de aspectos que só a vivência em uma cidade chamada Tefé pode reunir, as pessoas tendem a ficar mais próximas umas das outras.  Mais amigas.  É como se todo mundo tivesse ao mesmo tempo aquela sensação de que ‘aqui, pra gente vencer na caminhada, a gente tem que estar de mãos dadas’.  Talvez a maioria das pessoas daqui nem perceba isso, mas aqueles que são naturalmente mais fechados percebem isso muito bem.  Eles percebem isso porque sentem que precisam se abrir mais para que possam desfrutar de uma existência sadia por aqui.  E na busca das raízes dessa defensividade eles podem começar a entender melhor onde estão suas vulnerabilidades mais agudas, e encontrar nelas as alavancas para começar uma grande revolução.

Agora eu vejo o que os índios viam

O céu das noites amazônicas sempre me fazem lembrar de uma coisa.  Em uma aula de Línguas Indígenas o professor nos passava um pequeno glossário com palavras da – se não me falha a memória – língua Ashaninka.  Ao ver que uma das palavras desse glossário significava, em português, “Via Láctea”, eu, que até meus doze ou treze anos sonhava um dia ser astrônomo, questionei quase que indignado: “mas, como fazem os índios para saber que existe uma galáxia, ou mesmo entender o que é uma galáxia?”  E o professor respondeu: “não, eles não entendem ‘galáxia’ como nós entendemos, mas eles sabem que existe uma faixa mais densa de estrelas no céu, e eles têm um nome pra isso.”  Naquele momento me flagrei me dando conta que eu mesmo não sabia nada dessa faixa mais densa de estrelas – que justamente nomeia a galáxia – e nunca a tinha visto.  A própria Via Láctea.  Agora eu vejo o que os índios viam.