Agora eu vejo o que os índios viam

O céu das noites amazônicas sempre me fazem lembrar de uma coisa.  Em uma aula de Línguas Indígenas o professor nos passava um pequeno glossário com palavras da – se não me falha a memória – língua Ashaninka.  Ao ver que uma das palavras desse glossário significava, em português, “Via Láctea”, eu, que até meus doze ou treze anos sonhava um dia ser astrônomo, questionei quase que indignado: “mas, como fazem os índios para saber que existe uma galáxia, ou mesmo entender o que é uma galáxia?”  E o professor respondeu: “não, eles não entendem ‘galáxia’ como nós entendemos, mas eles sabem que existe uma faixa mais densa de estrelas no céu, e eles têm um nome pra isso.”  Naquele momento me flagrei me dando conta que eu mesmo não sabia nada dessa faixa mais densa de estrelas – que justamente nomeia a galáxia – e nunca a tinha visto.  A própria Via Láctea.  Agora eu vejo o que os índios viam.

Um prólogo

Bom, creio que antes de falar das coisas que acontecem e desacontecem por aqui, convém falar o que é este projeto do qual passei a fazer parte, o que se espera de mim, o que eu espero dele.  Tive a oportunidade de conversar sobre isso com meus alunos, alguns amigos e colegas mais próximos, mas boa parte das pessoas que me conhecem ainda não sabe o que eu estou fazendo na Amazônia.  Segue uma breve explicação.

Tempos atrás, passou por estas terras um primatólogo chamado Márcio Ayres.  Ele veio estudar um curioso macaco de pelos brancos e cara vermelha e percebeu a grandiosa importância ecológica de seu habitat natural, a floresta de várzea.  Trata-se de uma área de 1.124.000 hectares de floresta que passa pelo menos 4 meses por ano totalmente alagada, e que desempenha um papel crucial no ciclo de reprodução de uma infinidade de espécies aquáticas e terrestres.  O mais óbvio a se fazer ali era estabelecer na área uma reserva ecológica, mas havia um entrave: numa reserva ecológica não pode haver residentes, e na floresta de várzea havia mais de 200 comunidades ribeirinhas.  Ayres, bravo ambientalista, concebeu então a ideia de ‘reserva de desenvolvimento sustentável’.  Neste tipo de reserva poderia haver residentes, desde que observadas certas condutas sustentáveis.

Assim se deu o nascimento do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.  O Instituto desenvolve e monitora uma infinidade de frentes de pesquisa relacionada à fauna e flora da Reserva Mamirauá e Amanã, e um de seus programas é o de Turismo de Base Comunitária.  Dentro deste programa está a Pousada Flutuante Uacari.  Já com 15 anos de estrada, a Pousada tem um corpo de colaboradores composto quase exclusivamente por membros das comunidades ribeirinhas dos arredores.  E como parte de um programa de turismo de base comunitária, a Pousada oferece a seus hóspedes visitas às comunidades de origem dos trabalhadores.

A Pousada é atualmente gerida pelo Instituto Mamirauá, mas em alguns anos sua gestão deve passar integralmente para as mãos dos comunitários que nela trabalham.  O processo de transferência da gestão compreende um enorme ciclo de cursos de capacitações, que vão gradualmente familiarizando os comunitários com elementos que não fazem parte de sua lida diária, mas que são necessários ao gerenciamento de um estabelecimento de hotelaria (noções de informática, redação de documentos, etc.).  E o maior passo a ser dado nesta caminhada é o comando da Língua Inglesa.

Há outro fator: um a cada quatro turistas estrangeiros que visitam a pousada, no momento em que preenchem os formulários de avaliação, mencionam que gostariam de poder conversar e interagir mais com os colaboradores.  Tudo isso fez com que um projeto de financiamento coletivo tenha sido criado para levantar dinheiro para a contratação de um professor de inglês, que dará aulas para eles durante um ano.  E – como diria Roberto Carlos – esse cara sou eu.

O que o se espera de mim

De um lado está o Instituto Mamirauá, com suas frentes de pesquisa, sua legião de biólogos, geógrafos, sociólogos e antropólogos, com seu consolidado renome no meio científico e suas abundantes publicações, desbravando, descobrindo e desvendando a floresta, tendo a sustentabilidade e o mínimo impacto como principais nortes.  O Instituto Mamirauá espera que este linguista que vos fala explore, desbrave, descubra e desvende o processo de aquisição de língua estrangeira neste tão peculiar cenário, e que em um ano tenha condições de, pelo menos, saber o que funciona e o que não funciona em termos de práticas de ensino neste contexto, mas que, num quadro mais otimista, tenha conseguido desenvolver um método de ensino funcional e orientado a atender às necessidades de comunicação dos colaboradores da Pousada, acenando para a possibilidade da publicação de um artigo científico com alta concentração de pioneirismo.

Do outro lado estão os colaboradores da pousada.  Eles esperam estar falando inglês em um ano.

O que eu espero disso

Senta que lá vem a história.

Quando voltei da Irlanda, há dois anos, trazia em minha bagagem certa ‘ressaca’ de turismo urbano.  Parece que não é com todo mundo que isso acontece, mas depois de visitar algumas capitais europeias e americanas, creio ter conseguido captar no ar o que há de igual em todas elas, e a minha vontade de conhecer o mundo ganhou novos ares.  Já não tenho mais vontade de visitar museus, nem construções antigas, nem de tomar café em pubs centenários, nem de tirar fotos na frente de estátuas.  Como já cantava Caetano, “everybody knows that our cities were built to be destroyed”.

Isso me ficou bastante claro nos meus últimos dias na Irlanda.  Meu limitado orçamento me dividia entre duas escolhas: ir para Paris ou fazer um tour pelo interior da Irlanda.  Amigos me disseram que não se troca Paris por nada, mas, sabe-se lá por quê, eu troquei.  Voltei da Europa sem conhecer a capital de maior frisson do mundo, mas tendo conhecido vários lugares legais (e muito verdes) da Ilha Esmeralda.  Ao fazer essa escolha, por um momento eu achei que ia me arrepender.  Mas não me arrependi.  E conheci um pouco melhor de mim mesmo naqueles momentos em que olhava para o horizonte nublado, com vento gelado e garoa na cara.  Era bem melhor estar ali do que em Paris, com um mapa na mão e com o olho no relógio para dar tempo de visitar e fotografar pelo menos os pontos principais antes de ter que voltar.

Pois bem, a Amazônia começou a invadir meus sonhos nessa época.  Talvez antes, não me lembro bem.  Mas definitivamente nesta época eu já pensava em não morrer sem ter visto esta floresta.  Não imaginava, obviamente, que viria trabalhar aqui, viver aqui.  Era como um desejo subjacente, que ficava escondido nos recônditos da minha mente até que eu lesse ou ouvisse a palavra ‘Amazônia’ em algum lugar.

O chamado

Como não ouvir o chamado?

Meses se passaram e meu primeiro semestre de 2014 foi marcado por uma sobrecarga de trabalho que eu nunca antes havia conhecido.  Trabalhando em três escolas, minha vida era preparar aulas, dar aulas, corrigir exercícios e provas, elaborar exercícios e provas.  Minha vida social ficou comprometida.  Não me sobrava tempo para o lazer, e quando eu insistia em tirar um tempo para mim, via-me pensando nas coisas que eu deveria estar fazendo para sair do atraso, para estar dentro dos prazos.

Foi bem no meio desse semestre que me chegou notícia da seleção de professor de inglês que o Mamirauá estava fazendo.  Ao ler o edital, senti um frio na espinha, um gelo.  Era como se eu sentisse que estar lendo aquilo, estar ali, na frente do computador naquele instante, era estar vivendo um momento muito significativo na minha vida (o que se provou verdade mais adiante, com a minha vinda para cá).

A minha vinda para cá foi motivada por duas coisas.  A primeira delas é a de estar trabalhando em um projeto que, embora não vá mudar o mundo, poderá mudar o mundo de algumas pessoas.  Mudar drasticamente, e para melhor.  A segunda é a de me permitir ser resgatado de um dia a dia sufocante, na qual o ‘trabalhar para viver’ se confundia com o ‘viver para trabalhar’.  De me permitir, aos 33 anos, a grande ousadia e o grande devaneio que é, simplesmente, viver coisas totalmente novas, conhecer outras pessoas, e no meio disso tudo, se deixar transformar por tudo o que se sente, se aprende, se vive.

Em outras palavras, é dar à vida que eu andava tendo um tempo.

Um tempo de floresta.

Já é Tempo de Floresta

Faz mais de dois meses que cheguei à Floresta Amazônica e ainda não havia me sentado para escrever neste blog, que remodelei especialmente para dar relatos sobre minha experiência na Amazônia.  Nesses dois meses muita coisa aconteceu.  Fui atrás de um lugar para morar, aluguei um apartamento, mobilhei e me mudei para ele, fui aprendendo o bê-á-bá de se morar nesta mui peculiar cidade amazônica de nome Tefé, participei de reuniões, uma delas com os comunitários ribeirinhos que hoje são meus alunos, dimensionei o tamanho do desafio profissional que tenho de enfrentar e completei cinco semanas de trabalho, com alguns percalços contornados e com a cabeça cheia de ideias, na esperança de que pelo menos metade delas funcione.

Eu pretendia, na verdade, publicar aqui um texto antes de chegar na floresta, anunciando o blog, sua proposta, e a viagem em si, já que muitos de meus amigos nem sabem que eu estou por essas bandas, e entre os que sabem, vários ainda não têm muita ideia do que eu vim fazer aqui.  Mas meus últimos dias no Sudeste foram de muita correria.  Tive tempo apenas de encerrar minhas atividades por lá, fazer as malas e ir para o aeroporto.

Enfim, uma série de eventos fizeram com que o post inaugural do Tempo de Floresta chegasse com dois meses de atraso.  Agora, com a rotina estabelecida e (quase) adaptado ao clima, à comida e aos pernilongos amazonenses, creio que estou na posição de começar a dedicar parte do meu tempo a esta velha paixão, que é a de escrever.  E de blogar.

Hã? ‘Tempo de Floresta’?  Cadê o ‘Vida Intercambista’?

Um dos avisos mais pertinentes que precisam ser dados neste post inaugural é para os subscribers mais antigos.  Muitas pessoas que não me conhecem pessoalmente ‘assinaram os posts do blog’ (cadastraram seus e-mails para receber um aviso sempre que eu postasse algo) ainda no tempo em que este blog se chamava ‘Vida Intercambista’ e comentava sobre minha experiência na Irlanda.  Pois bem, esse blog não é mais sobre uma experiência na capital da Irlanda, e sim sobre uma experiência na floresta de várzea, no coração da Amazônia. Se o que o levou a cadastrar seu e-mail aqui foi ler – necessariamente – sobre a Irlanda, pegar algumas informações e dicas, ter uma ideia do que o espera quando você chegar na Ilha Verde, é bem provável que a leitura deste blog não atenda mais o seu interesse.  Sinta-se à vontade para cancelar sua subscrição.  Como dizia um antigo professor de Direito Civil, “a amizade é a mesma”.

Mas se você tem algum interesse em, junto com este que ora escreve, descobrir a vida na floresta alagada, sinta-se em casa.  Já é tempo de floresta.

E o que acontece quando é Tempo de Floresta?

A princípio, mais ou menos como rolava no Vida Intercambista, a proposta do Tempo de Floresta é dar notícias numa cadência descompromissadamente quinzenal das coisas que vão acontecendo por aqui.  Contudo, estão também no horizonte deste blog alguns textos que não são exatamente de notícias, e sim frutos de uma mente inquieta diante de um verde infinito e generoso.  Em outras palavras, tem muita coisa na minha cabeça para que eu toque um blog somente com notícias de minha estadia.

Então, finalmente, aqui estamos: está, com dois meses de atraso, oficialmente inaugurado o blog.  Sejam todos bem vindos!  Em breve estarão aqui as minhas primeiras histórias vividas na maior floresta tropical do mundo.  Por ora, deixo a todos um forte abraço!