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Reloading Dublin

23-01-2012
Readaptando

“A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia”, já dizia o poeta cearense que andou desaparecido.  O fato é que as noites frias e chuvosas do inverno irlandês, em conjunto com a culinária rasa da Ilha Verde, me ensinaram a aproveitar com mais vigor as opulências da nossa terra-mãe: o sol de rachar coquinho, o vento gentil que passa sem congelar as orelhas, o céu azul, a mesa farta, o churrasco na laje, a carne com gosto de carne, o café com gosto de café, a breja na temperatura correta.  Tudo isso na companhia da família, namorada e amigos, fizeram com que meus quase quarenta dias em terras brasileiras fossem memoráveis.  Enquanto muitas pessoas no hemisfério norte comemoravam seus white Christmases, nós comemoramos o Natal com portas e janelas abertas para o espírito do Menino Jesus poder entrar porque estava um calor infernal.

Já faz doze dias que estou de volta à Irlanda, mas ainda estou em processo de readaptação.  Algumas coisas mudaram, e o meu retorno a Dublin dá uma textura de uma “segunda fase” para o intercâmbio.  Comentemos, pois, sobre o que mudou enquanto eu estava fora:

O bom filho a casa retorna

Não há dúvida que a mudança mais significativa foi o retorno do Primo ao Brasil.  Ele chegou à Pátria Amada um dia antes de eu embarcar de volta a Dublin, e deu tempo de revê-lo.  Ele volta para casa com a missão cumprida: estudou, trabalhou, passeou e fez uma penca de amigos, alguns dos quais já estão no Brasil e ansiosos para revê-lo.  Já aqui em Dublin, sua ausência dá uma guinada na minha experiência do intercâmbio.  Não tenho mais o grande parceiro para bater um papo descontraído ou discutir assuntos polêmicos, caminhar até o centro, cozinhar e rir quando alguma merda acontece (pois, como ele mesmo dizia, “se foder sozinho é uma bosta, mas se foder com ‘os irmão’ a gente dá risada junto.”).  Valeu todos os momentos que passamos juntos.  Como a mãe dele chegou a comentar, o intercâmbio passa, “mas o vínculo fica”.  O Primo será brother para a vida toda.

O Primo e eu em Howth, aproveitando um dos oito dias de sol que a Irlanda já conheceu

A guerrilha combalida

Uma coisa puxa a outra.  Por oito meses pratiquei a culinária de guerrilha com o Primo.  Pensávamos em conjunto, agíamos como um time.  Desde as compras no supermercado até cortar cebolas e lavar louças, era tudo feito na ágil dialogia guerrilheira.  Mas depois de passar um tempo no Brasil (onde a comida cinco-estrelas da mãe magicamente aparecia sobre a mesa) e de não encontrar o Primo para o nosso usual bate-bola culinário, fiquei confuso com os primeiros passos no processo de reassimilação da ‘guerrilha solo’.

Já na primeira visita ao supermercado comprei, como de costume, alguns itens de fácil preparo e consumo (e de valores nutricionais duvidosos), para os dias em que o tempo é curto e precioso.  Três ou quatro dias depois, ao debulhar um modesto pacote de macarrão instantâneo do Tesco sem dar cabo da minha fome por completo, me apercebi que já havia consumido todos os baratos paliativos pseudo-gastronômicos que havia comprado, mais os que o Primo havia me deixado.  Foi nessas que, no dia seguinte, enquanto fazia a barba frente ao espelho e pensava no que iria almoçar, vi a imagem de um intercambista com cara de bravo, que me disse: “que putaria é essa, rapaz?  não foi às duras custas que você aprendeu a domar até os mais ariscos dos fogões?  tá com preguicinha, é?  vai pra porra da cozinha agora e não sai de lá enquanto não me preparar algo decente!”

Posso dizer que agora as coisas já estão retornando à sua devida normalidade.  Mas o mais interessante é que esse episódio me conduziu a um debate interno: é da natureza humana essa capacidade de ficar mimado em apenas trinta e poucos dias, ou é a força da cultura plural e quente da nossa Pátria Amada que faz isso conosco?  O debate ainda resta inconcluso, e leitores estão convidados a darem seus ‘dois centavos’ nos comentários.

Little Forge news

Enquanto estive nos trópicos houve um intenso rearranjo de moradores na casa em que moro.  Saíram o casal da República Tcheca, o inglês, o francês e um dos brasileiros (o Primo) para a chegada de três irlandesas (duas das quais ainda não se mudaram, mas já pagaram o depósito e confirmaram a vaga).

Excesso de irlandeses na casa e o desejo incontrolável de limpar os pés na Union Jack

Quando cheguei de viagem, a casa estava aparentemente vazia.  Dos cinco moradores, uma estava viajando e a outra — médica com horários de trabalho tresloucados — é vista com pouca frequência pela casa.  Éramos basicamente eu e os gerentes, e a casa ficava vazia a maior parte do tempo.  Casa vazia me dava mais liberdade, mas também uma estranha e inexplicável sensação de tédio, mesmo quando eu tinha muito o que fazer.

Falando nos gerentes, não posso deixar de mencionar o fato de que o francês que aqui morava deixou a casa por um atrito com a gerência.  Para resumir: o quarto que eu ocupei por aproximadamente um mês e meio tinha um problema sério com black mold, como descrevi neste post.  O problema era de infiltração, e os donos da casa resolveram que era hora de consertar a parada e reformar o quarto.  Paralelamente a isso, o francês — que ocupava o quarto ao lado — avisou a gerência que em breve receberia seu primo para passar alguns dias em Dublin.  A gerência disse que ele não poderia receber o visitante por causa da reforma que estaria sendo executada no quarto adjacente.

No meu entender, receber visita por alguns dias não é uma questão de “pedir autorização”, e sim de simplesmente “avisar” (desde que respeitados os limites do razoável; não estou falando de receber uma galera inteira por tempo indeterminado).  Eu honestamente não consigo ver de que maneira a reforma do quarto ao lado interfere na possibilidade de um morador receber um visitante por alguns dias, e nem consigo ver onde está a legitimidade dos gerentes em negarem isso, visto que o que pagamos a título de despesas passa de largo o que de fato consumimos.

Para piorar, a reforma começou somente na quinta-feira passada, data na qual o primo do francês muito provavelmente já teria ido embora.  Enfim, como eu já disse antes nesse blog, é muito leviatã para pouco pacto social.

Tirando o barulho, a reforma não interfere em nada no dia a dia dos residentes

De resto, a maioria dos meus assuntos em Dublin já estão retomados.  Ainda não participei de nada relacionado a storytelling esse ano, mas estudos recomeçaram, e com ele os simulados e as redações quase que diárias.  Os boardgamers, talvez com medo de que 2012 seja mesmo o ocaso da existência como conhecemos, começaram o ano no pique de jogar duas ou três vezes por semana.  Tenho tentado recompor meu círculo social, no afã de cobrir os vácuos deixados por aqueles que já voltaram para seus países.  Não estou querendo dizer que amigos sejam substituíveis, mas, como já dizia o bom e velho Ari, “o homem é um animal político”, e a breja desce melhor quando a macacada está reunida.  Do mais, mando mais notícias quando tiver mais notícias.  Até breve!

Esquentai vossos pandeiros!

21-12-2011
Breja

Salve, galera!  Mais uma vez, passando aqui bem rápido só para dar uma notícia que já está ficando velha, e é bom falar logo antes que ela fique muito antiga e não faça mais sentido comentá-la.  Já faz 17 dias que estou na Pátria Amada Idolatrada, tomando sorvete, calçando chinelas largas, bebendo cerveja estupidamente gelada (coisa que na Europa é tão real quanto leprechauns e banshees), andando sem camisa na frente do ventilador e ouvindo comentários sobre a palidez da minha pele, que ficou privada de sol tropical por oito meses.

Cheguei de surpresa.  Minha mãe e minha irmã não sabiam que eu viria, e quase enfartaram de susto.  Minha irmã (que também está de férias no Brasil), quando me viu, se pôs a gritar “o que é isso! o que é isso!”.  Gritou tão alto que a vizinha resolveu telefonar para saber se estava tudo bem.  Foi divertido!

Não, meu intercâmbio não acabou.  Volto para Dublin no começo de janeiro.  Estou aqui somente para passar o Natal e o Ano Novo, rever a família, a namorada, os amigos e, principalmente, o sol.  E, claro, aproveitar o verão que ora se apresenta me esbaldando orgulhosa e perdulariamente da gastronomia do país onde nasci.  E, acreditem, o calor e as refeições brazucas são experiências muito mais intensas depois de oito meses de friaca e improvisação culinária.

Chopada de torre com os trutas (foto desfocada representa como víamos o mundo na ocasião)

Também aproveito para fazer uma reformulação radical nos itens que comporão minha bagagem no meu retorno a Dublin, agora que sei com mais clareza o que é de fato útil e inútil no meu cotidiano Esmeralda.  Ficarão no Brasil, por exemplo, algumas bermudas e um par de sandálias que passaram oito meses descansando ociosas no meu guarda-roupa na Little Forge.

As notícias que me chegam de Dublin informam que a neve começa a lançar seus primeiros tentáculos na cidade.  É impressionante o valor exagerado que os países anglófonos do norte dão a um “white Christmas” (se não nevar no Natal, todos brocham).  Depois de ter passado dois ‘Natais’ no Norte Gelado (2007 e 2009), concluí que faz muito mais sentido comemorar o Natal no sol tropical, entre um churrasco e outro, de portas e janelas abertas.  É só observar a imagem abaixo para entender o que estou falando.

Dublin, com seu usual chuva-e-sol, e Campinas: comparação covarde

Muito em breve estarei de volta a Dublin para reassumir as atividades no Vida Intercambista.  Enquanto isso estarei ocupado com o ócio inerente às férias no calor das terras tropicais, mas considero a hipótese de lhes brindar com um post bônus logo menos.  Deixo aqui meus sinceros votos de Feliz Natal e Feliz 2012 a todos os leitores!  Até breve!

Escuzê muá, messiê…

28-11-2011
I amsterdam

Salve!  Estou passando aqui rapidamente para dar relato da rápida viagem que fiz, na qual visitei Amsterdã e Bruxelas.  Viagem curta, com orçamento estudantil, mas bastante divertida mesmo assim.  Cortemos a lenga-lenga e partamos para o que interessa.

Voo e hostel

Peguei uma promoção da AerLingus e voei direto para Amsterdã pagando apenas 3 euros a mais do que na usual combinação “voo da RyanAir até Eindhoven + buso ou trem para Amsterdã”.  Viajei praticamente sem bagagem, com uma mala pequena e limite de dez quilos, sem espaço para dois casacos, mostrando praticamente o mesmo figurino em todas as fotos em que apareço.  Hospedei-me num hostel barato, com o pernoite a dez euros.  Dormi num quarto com outras nove pessoas.  O banheiro era meio sujo, e por mais de uma noite considerei se não seria menos nojento dormir sem tomar banho do que de fato tomar banho naquele banheiro.

Logo após fazer o check-in na recepção do hostel topei com um sueco no quarto.  Ele, sem camisa e com toalha na mão, olhou para mim e disse: “você está aqui para tomar banho?” e apontou o polegar para o banheiro atrás dele.  Não entendi o propósito da pergunta.  Por um segundo achei que ele estava me convidando para tomar banho com ele, assim, à queima-roupa, sem nem xavecar um tiquinho.  Disse a ele que não, que havia acabado de chegar, e ele então anunciou que ia tomar banho.  Fiquei confuso, mas deixei pra lá ― afinal, Amsterdã é terra de loucos.  Fui entender aquilo somente mais à noite, voltando a conversar com ele.  Do alto de sua sabedoria escandinava, ele havia se informado com os funcionários do hostel a que horas aparecia alguém para cuidar da limpeza, para poder tomar banho logo depois em um banheiro que atendesse o mínimo exigido para seus padrões suecos.  Começo a entender por que a Suécia tem índices assustadores de suicídio.  Eles podem preferir morrer a ― digamos ― tomar banho num muquifo.

Amsterdã

Sem dúvida a primeira coisa que salta aos olhos em Amsterdã é a arquitetura.  O “estilo holandês” não é pura estética, mas sim resultado da política de cobrança de impostos nos tempos idos.  A versão holandesa do nosso infame IPTU era cobrada consoante o quanto de fachada o prédio ocupava na calçada, mas como nem nos países ditos “desenvolvidos” as pessoas gostam de pagar impostos, os proprietários tentavam construir o prédio o mais estreito possível e tendiam a verticalizá-lo para aproveitar melhor o espaço.  Mal sabiam eles que num futuro não tão remoto esse estilo seria o “charme holandês”, fotografado copiosamente por turistas que pensam que os holandeses de fato gostam de viver em casas espremidas em quarteirões pequenos e cercados de canais.  As janelas são tão grandes e próximas umas às outras que começo a considerar se o estilo economizava não só nos impostos, mas também nos tijolos.

Amanhece em Amsterdã

Os famosos canais de Amsterdã estão para todo lado.  Produtos da barragem do rio Amstel, tão antiga quanto à própria cidade, os canais são tantos que renderam a Amsterdã a alcunha de “Veneza do Norte”.  Cortando o downtown num desenho que lembra as ranhuras de um pneu novo, os infinitos canais e pontes garantem um visual interessante e único à capital holandesa.  Nos cafés que ficam à beira dos mesmos pode-se sentar nas mesinhas na estreita calçada, tomar café, comer waffle com syrup e, dependendo do humor, acenar tchauzinho para os barcos que vão passando.

Amsterdã é também uma cidade que pedala muito.  Pareceu-me que metade das pessoas da cidade se locomove pedalando.  Há ciclovias pela cidade toda.  Não me lembro de ter passado por um só pedaço de rua sem ciclovia.  Às vezes estão na rua junto aos carros, às vezes na calçada junto aos pedestres.  E se o pedestre se distrai por dois minutos, seguramente vai parar em cima da ciclovia e ser acordado por aqueles “sininhos” de bicicleta.  Este vídeo de 70 segundos é uma pequena amostra do que ouvi ao vivo ao invadir o espaço dos ciclistas enquanto passeava.

Flores o escambau: Amsterdã é a cidade das bicicletas

Estive no famoso Vondelpark, onde as pessoas podem, desde 2008, fazer sexo ao ar livre depois que escurece.  Não flagrei ninguém no ato.  Creio que o frio outonal deixa as pessoas mais tímidas.  Ou talvez eu não tenha encontrado dentro do parque o lugar apropriado para tais práticas (o parque é bem grande).  O parque era ponto de encontro dos hippies nos anos 70, e as práticas de topless ou nudismo moderado foram sendo toleradas pelo governo holandês, como de costume, desde que se observem algumas regras (sexo, só longe dos playgrounds!).

Estive também, é claro, no famoso Distrito da Luz Vermelha.  Vi as prostitutas nas portas e nas janelas, mas não pude fotografá-las, uma vez que isso não é permitido.  Havia sinais indicando tal proibição no local, e fomos avisados de que se um turista ousa fotografar as primas, aparece alguém para arrancar a câmera do engraçadinho e atirá-la no canal.  Preferi não arriscar ― minha câmera é velha, mas eu gosto dela.  Há também alguns travestis no distrito, que fazem questão de mostrar o tamanho da jeba dentro (e às vezes fora) da tanguinha.  Creio que eles fazem isso para evitar enganos.  Como em Amsterdã se consome de tudo (maconha, cogumelos, etc.), é melhor se assegurar de que o cliente saiba exatamente o que está contratando, para depois não dar uma de Ronaldo e dizer que “não tinha percebido”.

Bruxelas

Bruxelas fica a três horas e meia de Amsterdã (viajando de busunga).  Fui e voltei no mesmo dia, e andei por lá por aproximadamente sete horas e meia apenas.  Ao chegar, fiquei impressionado com o visual moderno-envidraçado dos prédios vizinhos à estação onde desci.  Pensei que havia desembarcado em Boston, ou Nova Iorque.  Mas caminhando um pouco com um mapa na mão, logo cheguei ao centro histórico da cidade.

A Bruxelas moderna

O estilo gótico das construções salta aos olhos.  A praça principal é cercada de belíssimos prédios ancestrais e acabei ficando um bom tempo ali só para achar os detalhes na arquitetura dos mesmos.  Em algumas áreas, a cidade mescla o antigo e o novo, o gótico e o neon.  Não posso dizer que a mistura casa bem, mas indubitavelmente tem personalidade.  Como minha passagem por lá foi uma visita relâmpago, corri feito um maluco para ver tudo o que eu queria antes que a carruagem virasse abóbora.  Em poucas horas passei pelo Parlamento da União Europeia, o Parc de Bruxelles, o Palácio Real, o Museu Real do Exército e da História Militar e o famoso Atomium.

Acabei não vendo o famoso “pivetinho mijando”.  Ele estava em tudo o quanto era cartão postal, ímã de geladeira, panfleto de informações turísticas e tals.  Mas voltei de lá sem vê-lo.  Uma pena.

A Bruxelas gótica

Em Bruxelas acabei gastando todo o resto de francês que eu tinha desde que estudei o idioma na faculdade em 2005.  Espremendo toda a minha memória, extraí duas frases que acabei repetindo durante o dia todo: “pardon, xe ne parle pa francê” e “escuzê muá, messiê, vu parle vu inglê?”  Não tive nenhum problema de comunicação em Amsterdã, mas em Bruxelas há pessoas que simplesmente não falam inglês.  Não posso deixar de comentar duas situações engraçadas que ocorreram.  Numa delas, num parque, havia uma criançada uniformizada com uma pastinha azul na mão.  Quando eu cheguei, me cercaram falando todos ao mesmo tempo “messiê! messiê!”.  Um molequinho começou a disparar seu francês acelerado e eu tive que achar uma brecha para interrompê-lo e falar as duas frases que apontei mais acima.  Eles pareciam preocupados, e achei que fosse uma emergência, que estivessem em uma excursão e não conseguissem achar o ônibus pra voltar para a escola ou algo assim.  Então, muito rapidamente, chamaram outro molequinho para falar comigo, que então perguntou em inglês:  o senhor sabe o nome da esposa do Príncipe Albert?  Eles estavam participando de alguma gincana.  E eu achando que estavam em apuros…

O Atomium: zilhões de moléculas de ferro para representar apenas uma

A outra situação foi já no fim da viagem: uma moça me parou e tentou me convencer a doar dinheiro a alguma instituição que ajuda alguma coisa que não entendi bem.  Disse a ela, em francês, que eu não falava francês.  Ela ficou me olhando de forma esquisita, achou que eu estava de sacanagem.  Perguntei , então ― em francês ― se ela falava inglês, e ela me olhava perplexa, como a moça desse vídeo.  Ela disse em francês que não falava inglês muito bem, mas ficou claro que ela pensou que eu estava dando migué pela cara que fez.

Enfim, nobres leitores, por ora é isso.  A viagem foi muito bacana e, tirando o banheiro do hostel, ocorreu sem nenhum percalço.  Ainda estou devendo comentar sobre algumas notícias que não couberam no último post, e pretendo fazer isso na próxima atualização.  Até breve!

Contando estórias

7-11-2011
Manopla

Depois de oito semanas de merecido recesso, de vários apelos desesperados por parte de leitores assíduos (e até algumas ameaças), retomamos as atividades no Vida Intercambista.  Vou então comentar de forma superficial sobre as coisas que têm me ocupado nos últimos dois meses, e que contribuíram direta ou indiretamente para o meu sumiço.  Aí vocês decidem se minha ausência terá sido justificada ou não.

Quem defende os defensores?

Trabalhei como intérprete voluntário para a Frontline, uma fundação internacional sediada em Dublin que atua na proteção de defensores de direitos humanos em todo mundo (isso mesmo, a Frontline defende os defensores).  Trata-se da 6ª Plataforma Frontline de Dublin, onde 120 participantes de 85 países diferentes se reuniram para trocar ideia.

Foi muito bacana, conheci muita gente legal, aprendi um verbo novo (to schmooze) e o conjuguei à exaustão.  Entre os participantes havia ministros, embaixadores, ganhadores de prêmio Nobel, membros e ex-membros da ONU.  E mesmo com toda essa aura de importância, essa gente era simples e acessível.  Tive a oportunidade de conversar brevemente com alguns deles ― rápidos schmoozings durante os intervalos, mas consegui alguns cartões de visita e alguns contatos.

Manifestação da Frontline frente à embaixada da Arábia Saudita pela libertação de Abdulhadi

Linguisticamente falando, o evento era uma loucura.  Havia seis línguas ditas “oficiais” na Plataforma.  Alguém pegava no microfone e falava em árabe, outro respondia em francês, um terceiro retrucava em farsi.  Enquanto isso os intérpretes profissionais se viravam mais que charuto em boca de bêbado dentro de suas cabines para que todos pudessem ouvir nos translation headsets a interpretação na língua que preferissem.  Contudo, não havia interpretação direta entre todas as línguas oficiais do evento.  Assim, se alguém falasse em russo, o falante de espanhol ouviria o produto da interpretação russo-inglês e depois inglês-espanhol.  Se alguém falasse farsi, o sujeito da Rússia ouviria o produto da interpretação farsi-francês, francês-inglês, e finalmente, inglês-russo.  Quem já brincou de “telefone sem fio” nos tempos de meninice já entendeu o que eu quero dizer com isso…

Como português não era uma das línguas oficiais, havia quatro brasileiros e uma irlandesa fluente em português para ajudar participantes do Brasil, Moçambique e Angola a entender a discussão.  Experimentei fazer o que hoje considero ser a atividade linguística mais foda que existe.  Interpretação simultânea sussurrada não é fácil e dá um nó na mente.  Por sorte, acabei fazendo mais a consecutiva espanhol-português do que a sussurrada inglês-português, para a qual eu havia sido recrutado.  Também pude perceber que minha compreensão do francês está melhor do que eu imaginava (mas, ainda sim, está uma bosta).

Na festa de encerramento, feminista da Costa do Marfim dança com padre salvadorenho

Os voluntários do evento eram muito gente fina.  Mas uma coisa precisa ser pontuada: alguns deles eram ativistas da causa GLBTT, e levaram os participantes da plataforma que queriam aproveitar a noite de Dublin para os famosos The George e The Dragon, anunciando estes lugares como o melhor que Dublin tem a oferecer, mas sem avisá-los de que se tratavam de baladas GLS.  Embora isso tenha satisfeito alguns participantes, que vêm de países onde a homossexualidade é crime e, em alguns casos, punida com castigos físicos, foi particularmente constrangedor para outros, que queriam apenas tomar uma cervejinha num pub antigo e curtir música irlandesa.  Enfim, achei que a brincadeira foi de um acentuado mau gosto.

Board gaming

Os que me conhecem sabem que sou jogador de RPG “das antigas”.  Já vai pra 15 anos que estou no hobby, já cheguei a ser editor de um site especializado em GURPS.  Mas, há pouco mais de um ano, comecei a me interessar por outro tipo de jogo, os board games (que, não raro, compartilham público com os role-playing games).  Conheci uns caras colecionadores desses jogos na minha cidade (alguns são leitores do Vida Intercambista!  fica aqui um alô pra eles!) e tive a oportunidade de jogar uns jogos “menos mainstream” antes de vir para a Irlanda.

Em setembro desse ano, passeando por uma loja de jogos aqui em Dublin, vi um anúncio de uns boardgamers querendo recrutar mais gente para o grupo.  Entrei em contato com eles e comecei a participar dos encontros.  Antes da primeira jogatina receei que o grupo pudesse ser composto por moleques nerds bitolados.  Ledo engano.  São advogados, administradores, pais de família, aposentados, professores universitários e até PhD’s que se reúnem para jogar semanalmente.  Juntos, os integrantes do grupo têm mais de 500 jogos à disposição, e já joguei cerca de 20 títulos desde que me juntei à patota.

Os boardgamers e uma futura jogadora no canto superior esquerdo da foto

Enquanto a América é a terra dos bons RPGs, a Europa é o continente dos bons board games.  Aqui estão os melhores game designers e os jogos mais inteligentes.  E, segundo dizem, os bons designers americanos só são bons porque seguem a escola europeia.  Para se ter uma ideia, jogos europeus são chamados de eurogames, e os americanos de ameritrash.  Tem sido bem bacana me reunir com os caras semanalmente para um bate-papo e para um jogo tipicamente “europeu”.

Foi através desse grupo de jogadores que ouvi falar da Gaelcon, a maior convenção de jogos da Irlanda (que ainda é pequena se comparada às nossas do Brasil).  Devido à enchente que assolou algumas partes de Dublin duas semanas atrás, o hotel onde iria rolar a con teve que cancelar o contrato faltando cinco dias para o evento.  Os organizadores tiveram que arrumar um novo local às pressas, e no site anunciavam a necessidade desesperada de voluntários para ajudar a con a, de fato, acontecer.  Ao ler isso, resolvi unir o útil ao agradável, achei que seria massa trabalhar como voluntário para participar da con sem gastar com os ingressos (que eram meio salgados).

Apesar do perrengue com a troca de endereço às pressas, a Gaelcon ocorreu sem grandes tropeços e foi muito massa.  Conheci gente interessante, ganhei convites para aprender a vestir armaduras e lutar com espadas, para integrar grupos de LARP, e conheci vários jogadores daqui da Irlanda.  Mas o mais legal foi o fato de eu ter ganhado o Gaelcon Staff Award 2011.  Disseram-me que a maioria dos membros do comitê me indicou quando perguntados quem deveria ganhar o Award esse ano.

Eu ganhando o “Gaelcon Staff Award 2011”

Fiquei lisonjeado com o prêmio.  Os voluntários eram quase todos velhos amigos ou conhecidos dos membros do comitê.  Mesmo assim, resolveram dar o Award para o hardworking forasteiro desconhecido.  Em breve pretendo publicar uma resenha completa da con no meu antigo site de RPG.  Se você se interessa por essas coisas, fique de olho no GurpsNation.com.

Storytelling

Fui convidado para participar do Milk & Cookie Stories, um evento que rola em todas as segundas terças-feiras de cada mês no centro da cidade (amanhã tem!).  Lá, pessoas se reúnem e se sentam em roda para contar histórias pautadas por um tema pré-definido.  Contadores de histórias (ou “narradores”) ditos profissionais sempre aparecem e fazem um mini-show com estórias bacanas e bastante teatralidade.

Nota: eu não vou mencionar que o evento oferece gratuitamente café, leite, chá e ― claro ― deliciosos cookies para os participantes, se não os brazucas intercambistas de Dublin que lerem isso vão querer aparecer lá só pra fazer uma boquinha, sem o menor interesse por storytelling.


Num desses eventos topei com um narrador “profissa” que ministra workshops e está sempre envolvido com vários acontecimentos do ramo.  Participei de um de seus workshops e de outro evento de narração, onde tive a oportunidade de exercitar minhas habilidades como narrador.  Esses eventos são geralmente “dentro” de outros eventos, e é bacana poder chegar na portaria e dizer “I’m a storyteller!” e entrar de graça na Dublin Contemporary Art Exhibition 2011 ou no Funky Seomra (ambos me custariam 15 euros cada).

Nota: o Funky Seomra é uma balada “alternativa” que acontece uma vez por mês.  Tem espaço para as pessoas dançarem, espaço para as pessoas se sentarem em círculos e contarem estórias, uns jogos orientais para serem jogados num dos cantos, papéis e gizes de cera noutro canto para artistas e pseudoartistas botarem para fora o que seus coraçõezinhos sentem.  Destaca-se por ser uma balada enfaticamente “sem álcool e sem drogas”, mas as pessoas que frequentam são todas muito, muito loucas.  Minha conclusão: ou essa galera enche a cara de álcool e drogas antes de ir pra balada, ou então estamos diante de um fenômeno distinto que poderia virar um excelente estudo de caso para pesquisadores que pretendem provar que o que deixa as pessoas loucas não é o álcool ou as drogas, mas sim o ciclo vicioso do ritmo frenético que a sociedade de consumo introjeta em nossas vidas frágeis e espiritualmente miseráveis.  Veja o vídeo e tire suas próprias conclusões.


Contar histórias em inglês é arte reservada somente aos destemidos.  Exige-se grande comando do idioma para poder entreter os outros com histórias.  O nervosismo inerente de ter uma plateia diante de si simplesmente dobra quando estamos falando língua estrangeira.  O storytelling envolve, também, um intenso exercício de oratória e atuação, e não deixa de ser um treino, uma forja de recursos valiosos à minha didática em sala de aula.  Professores sabem (ou deveriam saber…) o quanto uma dose de humor frente à lousa pode alavancar o aprendizado dos pimpolhos.

Bom, nobres e assíduos leitores, creio que, por ora, é isso.  Há algumas outras notícias que merecem ser comentadas, mas que devem ficar para o próximo post porque este já se avolumou além da conta.  O Vida Intercambista retorna com o ritmo usual de publicações, mas eventualmente um ou outro post bônus poderá aparecer de súbito no meio da programação.  Até breve!

Culinária de Guerrilha (parte 3)

12-09-2011
Nuts

Se chegou agora, confira a parte 1  e a parte 2 antes de ler esse post.

Ireland going nuts

Como já apontei anteriormente, a crueldade dos irlandeses não conhece limites.  Não se comprometem com protocolos de guerra, fazem jogo sujo, chutam cachorro morto.  Ao perceber o grande número de estrangeiros vegetarianos em Dublin, totalmente imunes ao fulminante bombardeio da carne com gosto de banha, os paddies resolveram apelar e aplicar um golpe baixo nos soldados mais vulneráveis das linhas adversárias: os alérgicos.

Os guerrilheiros alérgicos a castanhas e “nuts” em geral acabam tendo que voltar para casa mais cedo, atordoados, famintos e putos da vida.  Num ato completamente desumano e que trespassa qualquer nível de crueldade já visto mesmo em tempos de guerra, os inescrupulosos e ladinos leprechauns escreveram na embalagem de vários alimentos, de azeite a feijão, de iogurte a açúcar, de tempero de ervas a bolachinhas, um aviso mesquinho que transcrevo abaixo:

Recipe: No nuts.
Ingredients: Cannot guarantee nut free.
Factory: Product made in nut free area, but nuts used elsewhere.

Confusos, os alérgicos acabam ficando sem comer uma diversidade muito grande de produtos simplesmente porque não conseguem ter a certeza do consumo seguro.  Desnutridos e psicologicamente abalados, os guerrilheiros acabam jogando a toalha antes da hora e voltando para suas pátrias, onde os avisos sobre alergia são claros e honestos.  É triste, mas é verdade.  Se você for maior de 18, confira abaixo as imagens da crueldade irlandesa (esteja avisado de antemão que as imagens são fortes).

O recado é: “acho que não tem ‘nuts’, mas se você comer e passar mal, problema seu

Dê uma atenção especial para o que se lê na segunda foto: “antes de ser preparado para a manufatura deste produto, o equipamento foi previamente usado para fazer produtos que contêm nuts”.  Levante a mão quem também acha que, na real, a mensagem é “como nós nunca lavamos nossos equipamentos, até alérgicos a pelos de gatos deveriam pensar duas vezes antes de consumir este produto”.

O inimigo debandado

Depois de cinco meses na Ilha Esmeralda e de ansiosa busca pela a culinária local, chegamos a uma conclusão: o inimigo está debandado.  Um professor da escola em que estudo foi muito claro em dizer que não há distintamente uma “culinária irlandesa”, e toda e qualquer tentativa de se definir o que é comida típica da Ilhota resulta inconsistente e imprecisa, já que alguns resistirão em chamar de “legitimamente irlandesa” qualquer receita que venha da Grã-Bretanha, e outros entenderão a questão de forma mais liberal e agregadora no que toca à herança inglesa na cultura esmeralda.

Mesmo as tais batatas, tão estritamente amarradas à cultura irlandesa, não apareceram por acaso.  Vieram nos tempos em que os ingleses exploravam fazendeiros irlandeses, que vendiam tudo o quanto tinham para pagar impostos, passando a viver num crítico estado de pobreza e se alimentando quase que exclusivamente das tais batatas.

Um saco de batatas 100% irlandesas: “Enjoy the taste of Ireland!”

Claro que muitos pratos nasceram a partir dessa situação.  É certo que grandes sabores nascem da criatividade de pessoas que perpassam adversidades alimentícias.  Haja vista a nossa icônica e rica em sabores feijoada, que embora fosse feita a partir de restos de porco, fazia o cheiro do rango da senzala ser muito melhor que o da casa do senhor de engenho.  Com séculos de trajetória, a fejuca foi ganhando acessórios e guarnições e hoje é uma das coisas mais apetitosas e nutricionalmente completas que se vê por aí nas gastronomias do planeta.  Já as batatas irlandesas, bom, eles tentam reinventá-la de todo jeito, assá-la, fritá-la, cozinhá-la, amassá-la, temperá-la, recheá-la, usá-la de recheio; até bebida alcoólica dela fazem (o intragável poitín).  Mas no final, são só batatas, e não vão muito além disso.

E não nos esqueçamos que as batatas já traíram os irlandeses uma vez.  Eles comiam só batatas quando duas pragas atingiram os pobres tubérculos levando a ilha a um decréscimo populacional estrondoso devido às mortes por inanição e ao êxodo em busca de comida no ultramar.  Fica claro que a batata não é componente da “culinária irlandesa”, mas é, sim, um resquício de um processo histórico dolorido.  Um professor (o mesmo já referido acima) pontuou de forma contundente o assunto: “Pessoas dizem que irlandeses adoram batatas, mas isso não é bem verdade.  Nós adoraríamos ter vivido de caviar, mas a História não nos deixou.”

Batatas adulteradas: a culinária estilo “junta tudo que tá sobrando” e seus prodígios

Nota: falando em caviar, gostaria de desabafar que jamais entendi a cozinha francesa.  Na contramão de processos históricos que geram dificuldades nas mesas das famílias, provocando mentes curiosas a inventar iguarias inovadoras e interessantes, parece que os franceses diligentemente buscaram o que há de mais bizarro no mundo para chamar de comida, como ovas de esturjão, fígado de ganso com cirrose, caramujos, pernas de rãs e queijos deixados a mofar até que fedam aquele chulé de depois do futebol.

Ao passar pela Grafton pela primeira vez tentei achar um, apenas um restaurante de comida irlandesa, mas não encontrei.  Hoje, ao me recordar disso, me sinto como um soldado estadunidense, cheio do poder e das tecnologias, procurando Osamas, Saddans e ogivas nucleares em desertos onde jamais os encontraria.  Eu, do alto da grandeza da culinária do meu país, com feijoadas, acarajés, tutus à mineira, virados à paulista, vatapás, feijões de corda, azeites de dendê, esperava o confronto com uma culinária à altura.  Não da mesma altura da cozinha brasileira (porque a cozinha brasileira humilha qualquer uma), mas algo condizente com um país que, embora tenha menos habitantes que certo distrito paulistano, tem presença cultural suficiente para ser famoso pelos leprechauns, arco-íris, bebedeiras, e músicas e danças celtas.

Costela no bafo, macia e saborosa, comprada no mercado brasileiro: artilharia pesada

Uma amiga minha que trabalha de au pair me relatou que a dona da casa em que vive não lidava bem com condimentos.  Ao assar um frango, por exemplo, ela jogava sem fazer pontaria quatro dentes de alho inteiros para assar junto, e assim considerava temperado o galináceo.  Ao final, a dona da casa aprendeu com essa minha amiga os milagres que um espremedor de alho pode fazer.  É triste ver irlandeses abandonados por sua culinária nacional a ponto de nem saber definir o que é a cozinha irlandesa.  A ponto de não saber nem espremer um alho.

Mas esta é a situação particular de Dublin.  Ouvimos dizer que, no interior do interior do interior da Ilhota a história é outra.  Dizem que lá resiste, ainda intocada, a cozinha dos povos que aqui viveram nos tempos pretéritos, sem a mácula nefasta das mãos inglesas e seus óleos escuros e pestilentos.  Parece-nos, então, que o inimigo debandou de Dublin, deixando-a para a globalização cosmopolita, com apenas uma pitada insossa da fria sombra das boas comidas irlandesas de outrora, e foi ocupar áreas mais ao interior da Ilha, longe dos paladares curiosos e intrometidos dos forasteiros.

Filés de gadus morhua com cebola, alho, ervas e azeite: artilharia naval

É notável como certas estratégias de guerra se repetem amiúde.  Similar à forma com que os russos sacanearam Napoleão e Hitler tirando proveito de seu rigoroso inverno, os irlandeses sacaneiam os intercambistas com uma cozinha rasa, fria e introvertida, que desaparece, se dissolve completamente nas ruas entre os restaurantes de outras bandeiras, fadando aqueles ávidos por provar da comida local a vagarem famintos e sem rumo num eterno inverno chuvoso.

Mas diferentemente das agruras que passaram esses dois generais mirins que citei, nossa atual situação é bastante positiva e operante, de modo que não temos a menor intenção de parar de marchar até encontrar o inimigo e dar cabo dele.  Se o que chamam de “cozinha irlandesa” é o que celtas ou vikings cozinhavam nos tempos idos, nós vamos averiguar isso.  Se essas iguarias estiverem escondidas no interior da ilha, nós chegaremos até elas.  Se não tivermos dinheiro para o busão, nós pegaremos carona.  Não descansaremos até encontrar o que viemos procurar.  E quando isso acontecer, nobres leitores, tenham certeza de que estaremos aqui para mais um reporte detalhado e honrado pelo mais sólido compromisso com a verdade.  Do mais, por ora, não há mais nada a declarar, pelo que então termino este relatório.

Mamangava,
no 157° dia da Resistência.

Culinária de Guerrilha (parte 2)

9-09-2011
Cortando Costela

Se chegou agora, confira a parte 1 antes de ler esse post.

Conhecendo o Inimigo

Semanas foram passando e eu percebia que o inimigo se evadia de mostrar as caras.  Fazíamos missões de reconhecimento, explorávamos o downtown city centre.  Achamos restaurantes chineses, turcos, nepaleses, indianos, japoneses, mexicanos, libaneses, vegetarianos, franceses, espanhóis, brasileiros.  Sim, come-se muito bem em Dublin, uma cidade gastronomicamente cosmopolita.  Mas nada de achar algo que autenticamente pertencesse à “culinária irlandesa”.  Recorremos, então, à nossa guerrilha: penetramos de assalto restaurantes e supermercados e surramos prateleiras e cardápios até que nos entregassem os nomes dos mais notáveis representantes oficiais da alta cozinha da Ilha Verde.

O primeiro foi o soda bread, um pão dito all-Irish que alguns irlandeses dizem ser de experimentação obrigatória.  Colocam de tudo na massa.  Alguns põem até Guinness.  Mas quando pronto, o pão terá o gosto do que passarmos nele.  Soda bread com manteiga tem gosto de manteiga.  Soda bread com geleia de morango tem gosto de geleia de morango.  Nem os próprios nativos da ilha conseguem entrar num consenso de qual é o gosto que tem o pão.  No final, é apenas mais um pão, totalmente comível, como muitos outros que havíamos provado.  O falatório que gira em torno dele e o nome de substância alcalina que vai dissolver nosso intestino é somente para plantar o medo no coração dos valentes guerrilheiros.

O Irish stew também compõe as forças armadas do inimigo.  Um prato também all-Irish, neste caso até no nome.  Mas o confronto com ele foi uma piada.  Um ensopado de carne com cenouras e batatas num molho que também pode levar ― adivinhem o quê? ― Guinness em algumas cozinhas.  Passar por ele não representou nenhum desafio: pedi uma segunda tigela, arrotei, e percebi que se tivessem me falado que o nome daquilo era apenas “meat stew” eu nem sequer teria me dado conta de que estava a experimentar comida esmeralda.

Depois de dois confrontos fáceis, cometemos o erro de baixar a guarda.  A próxima batalha foi com duas iguarias inglesas, mas que são bastante tradicionais na Ilha Verde.  A primeira delas foi o famoso Fish and Chips.  Eles estão em todas parte.  É simples: batata frita com peixe empanado, também frito em “banho de óleo” (deep fried).  Como já esperávamos, o sabor não é ruim.  O problema é que, dependendo de onde você o adquirir, o óleo usado será ancestral, parecido com óleo diesel, e fará com que tudo o que for nele lançado desapareça completamente em sua escuridão até ser pescado novamente.  Muito similar a algumas pastelarias do nosso Brasil.

Fish n Chips com sal e vinagre, em cada esquina de Dublin, revela a timidez da culinária local

O maior desafio de comer Fish and Chips não é o sabor em si, mas sim o fato de se pagar relativamente caro por um alimento relativamente simples que entra num buraco negro e sai de lá alterado, de forma que nunca saberemos se aquilo que o cara colocou no óleo é o mesmo treco medonho que ele tirou.  É o fato de se pagar caro por algo que vai se instalar em nossa coronária e lá ficar até que nosso cadáver seja enterrado e comido por vermes, que por sua vez também morrerão de problemas digestivos quando chegarem ao nosso Fish and Chips arterial.

O segundo embate foi com o Batter Burger (também Battered Burger).  A armadilha aqui é o nome.  Nas Américas, de norte a sul, por “burger” se entende um sanduíche, com pão, hambúrguer, talvez um queijo, uma salada, etc.  O Batter Burguer é um hambúrguer empanado e frito no mesmo óleo mágico que os Fish and Chips, e servido sem pão algum, apenas com batata frita (também em óleo mágico).  É servido ainda gotejando óleo, verte óleo a cada mordida, mina óleo com qualquer pequena pressão aplicada sobre o oleoso objeto.  Parece mais uma esponja de óleo.  É muito óleo.  Na real, o Batter Burger é um picolé de óleo.  Daria pra lubrificar o motor de um caminhão com ele.  Ou, quem sabe, até fazer o caminhão andar.

Essa foi uma batalha que perdi.  Comprei o inimigo, caminhei cinco minutos com ele embrulhado nuns guardanapos dentro de um saco de papel e quando fui comer, todas as camadas de guardanapo estavam completamente encharcadas.  O monstro é tão perdulário com óleo que parecia que ele mesmo o produzia.  Comi metade e fiquei empachado.  Senti que se comesse mais um pouco, vomitaria (e hoje vejo que talvez tivesse sido melhor partir pra isso).  Tive que bater em retirada e confessar: não posso com Batter Burger.  Além da humilhação da derrota, as sequelas desta batalha talvez incluam uma futura ponte de safena, sendo que eu comi apenas a metade desse burger do mal.

Para nossa infelicidade e indigestão, irlandeses parecem gostar de tudo o que é mergulhado em óleo quente.  Antes de vir para Dublin eu li em algum lugar que cerca de 40% da pupulação irlandesa tem menos de 25 anos.  Agora que vivo aqui e observo a quantidade desumana de fritura maligna entupindo o coração da moçada, combinada com bebedeiras intensas e constantes e com um sistema público de saúde que deixa a desejar, a razão para esta estatística parece óbvia.

Cebolas-oleosas-do-Capeta, de fácil aquisição, é por onde jovens entram no mundo das drogas

A Chegada do Primo

A chegada do Primo à resistência reconfigurou o status quo.  Antes dele eu me aventurava com salmões com batata sauté, fajitas, chiles, wraps, ensopados, grelhados.  Com a chegada do Primo, a resistência se tornou menos aventurosa, menos criativa, mas mais consistente e econômica, com regulares e familiares arroz com feijão.  Na falta de representantes legítimos da cozinha esmeralda, fizemos uma captação valiosa de recursos no território, localizando mercados brasileiros onde conseguimos arroz, feijão, farofa, costelas e picanhas a preços bons.  Estrogonofe, yakisoba e assados que deixam os gringos da Little Forge inebriados pelo aroma passaram a compor a artilharia da nossa culinária de guerrilha.

Olha, mãe! Fizemos sozinhos! (salmão com alcaparras, batatas com champinhons, vegetais no azeite e páprica)

Ademais, o Primo tem um informante em terras brasileiras que nos passa informações valiosas.  Ele o chama de MÃE (um codinome muito pertinente, eu diria).  O Informante MÃE nos muniu de informações que nos possibilitaram construir nossos maiores prodígios nesta guerra culinária, humilhando os pães com saladas do francês, a pizza congelada do inglês e as arepas da venezuelana (temos ainda que baixar a cabeça para a americana, que ao contrário do que seu estereótipo cultural poderia sugerir, é a pessoa que, de longe, mais entende de cozinha nessa Little Forge).

Os dois guerrilheiros em foto histórica no início da resistência (jabá gratuito para o Terceira Terra)

Depois de vermos alguns vídeos do mestre Paulo Tiefenthaler, tornamo-nos ases da “culinária de guerrilha”.  É alucinante: sem planejamento prévio, invadimos a cozinha e rapidamente localizamos os recursos disponíveis (comidas e panelas limpas).  Com um tempo de deliberação incrivelmente curto, decidimos intuitivamente o que será misturado com o quê, o que vai para o fogo, o que vai para o forno e o que vai para o micro-ondas.  Temperamos, comemos, lavamos louças, e caímos fora da cozinha enquanto o inglês ainda está decidindo qual sabor de pizza vai descongelar hoje.  Guerrilha é assim.  Hi-five, Primo.

Continua…

Volte na segunda, dia 12, para conferir a parte 3.

Culinária de Guerrilha (parte 1)

6-09-2011
Mr. Salmon

O início da resistência

Aos nove de abril de dois mil e onze pus os pés em terras irlandesas, e tal data marca o início da resistência.  No mesmo dia jantei um macarrão com molho vermelho.  Nada que assustasse um guerrilheiro, ainda que ― diga-se já ― seja um guerrilheiro de estômago mimado por uma mãe que cozinha muito bem e por um pai que eventualmente o convida para comer o melhor pintado na brasa do mundo em uma cidade do interior paulista.  Entrei no avião esperando o pior, mas a KLM me serviu decentemente.  Cheguei à casa de família esperando comer batatas, mas acabei comendo comida italiana que, apesar de requentada, não fez feio.  Posso dizer que as primeiras horas da resistência foram suaves.

No dia seguinte cheguei ao centro da cidade e, ao adquirir meu chip Fodafone, perguntei à moça dos celulares onde eu poderia comer algo que fosse essencialmente irlandês.  Estava em missão de reconhecimento, queria me munir de informações preciosas.  Mas, para minha surpresa, ela não soube me responder.  Não soube onde, nem o quê me indicar.  Desci a Grafton Street e arredores, observei com atenção a densa aglutinação de restaurantes e, na ausência de algo comestível tipicamente irlandês, concluí precipitadamente que o inimigo deliberadamente obstruía meu conhecimento da verdade.  Acabei, como já relatei antes, comendo algo muito bom, mas nada irlandês: um burger do Sinnotts, notadamente um dos melhores que já provei.

Mais à noite, como também já relatado anteriormente, fui embebedado por um pirralho e me empanturrei de bolos e salgadinhos.  Comi também uma salada com maionese e uns vegetais, mas não havia sequer sombra de algo que eu pudesse chamar de tipicamente irlandês, tirando a bebedeira dos foliões.

Primeiros dias

Durante as três semanas que passei na homestay eu não cozinharia nada.  Encarava meu período lá como um treino, um estágio não remunerado, um preâmbulo do que estava por vir.  Um espaço onde eu poderia aprender quais são os truques sujos da culinária local para responder bem a eles quando eu começasse a encarar as trincheiras na cozinha.  Mas o inimigo é ardiloso, e ao ver meu sobrenome italiano a irlandesa da casa de “família” (que era só ela) se adiantou em servir basicamente massas da península, privando-me assim do valioso processo de aprendizado gastronômico pelo qual de bom grado eu passaria.

Deram o fogão para um italiano e saiu uma carbonara vegetariana: a gente sabe sobreviver

A irlandesa era bem versada em massas e gostava de cozinhar.  Fui comendo espaguetes, talharins, lasanhas.  Nada que me tirasse da zona de conforto.  Quando, de repente, o soco no abdome.  O trio de feijão doce + purê + salsicha de porco.  Era a primeira batalha começando, e eu nada poderia fazer senão ficar e lutar.  Era a visão do inferno: duas “conchadas” de purê (que para um desavisado, poderiam muito bem parecer sorvete de creme), formando uma ilhazinha num mini-lago de feijão doce com três salsichas hermética e simetricamente repousadas formando algo similar ao símbolo da Mercedes-Benz.

A única coisa tragável era o purê.  A salsicha tinha gosto de gordura, algo difícil de descrever.  O feijão era pelo menos duas vezes e meia maior do quer todos os que eu já havia visto.  Apenas um show-off para assustar o adversário.  Mais tarde fiquei sabendo que aqui eles são chamados de kidney beans.  Quanta ironia desses irlandeses!  Batizar comida com nomes pertinentes ao sistema excretor.  Não sei se fazem alusão ao molho doce, comparando-o com a mais amarela das urinas matinais, ou se fazem alusão ao próprio feijão, comparando-o com rim mal passado de cabrito com estenose de junção uretero-pélvica, ou se simplesmente comparam a dor de saborear essa tenebrosa iguaria à dor que sentimos quando temos pedras nos rins.

Não sei se algum dia conseguirei entrar novamente em um automóvel da Mercedes, ou sequer atravessar a rua passando pela frente de um.  Assim é a guerra.  Uma fração de segundo, um ataque não previsto, pronto: já temos cicatrizes e sequelas macabras para o resto da nossa existência.

Botaram o chapéu de chef na japonesada e saiu um carê dos melhores: a gente sabe sobreviver

A trincheira

Brasileiros e venezuelanos que já estavam na resistência há mais tempo imediatamente me advertiram para o sabor da carne irlandesa.  Ninguém conseguia definir que sabor era esse, mas eram unânimes em asserir que o sabor era algo que vinha direto do Inferno via Sedex.   Eram tantas pessoas fazendo a mesma advertência, tanto pavor na cara dos outros guerrilheiros que acabei adiando ao máximo o confronto com esse demônio.

Não custa lembrar que esses guerrilheiros eram pessoas como eu e você.  Estudantes, jornalistas, administradores.  Todos sugados subitamente de seus países de origem para escrever um parágrafo da história desta guerra.  Pais de família, playboys, dentistas, bolsistas.  Seres humanos, como eu e você.  Todos com pavor de carne de boi morto.  É, amigos, guerra deixa marcas que não dá para apagar.

Quando me mudei para a Little Forge vi que o confronto com a carne irlandesa seria inevitável.  Os arredores de minha nova morada eram generosamente servidos de supermercados e mercadinhos fuleiros de esquina, mas todos, repito, todos estavam infestados com a tal carne irlandesa.  Trata-se de uma ocupação que já se estabelece há tempos, algo que não vai se resolver com uma canetada ou duas.  Não havia como se esquivar.  Tive que pagar e ainda dar espaço em minha geladeira para o inimigo.

E, vejam vocês, a ironia maligna desses irlandeses não conhece limites, pois nas prateleiras dos supermercados onde compramos pedaços de bois crescidos na Ilha Esmeralda se vê uma espécie de selo que estampa as palavras “Buy me!  I’m Irish!”.  Fazem tanto jogo sujo quanto podem, resguardando costumes pré-medievais, como quando nos escuros e belicosos tempos em que escreviam recadinhos nos pedregulhos que lançariam de catapulta rumo à cabeça do inimigo.

Apelam para o patriotismo, porque se apelarem para o sabor da carne, ninguém compra

Durante todo o período em que aquele pedaço de boi morou em minha geladeira eu não consegui pensar em outra coisa.  Não conseguia paz de espírito antes de vencê-lo.  Para minha sorte, o constante e quase pornográfico entra-e-sai de moradores da Little Forge gerou na cozinha um armário onde se acumulam restos de alimentos de todo gênero que pertenceram a ex-moradores e que hoje pertencem a quem primeiro pegar.

Quando tirei o boi da embalagem senti um cheiro que me parecia gordura.  Banha.  Algo difícil de descrever.

Algo do Inferno.

Quando me dei conta de que teria de comer aquilo, minha moral despencou.  Estava quase desistindo quando lancei olhos no armário e me lembrei da promiscuidade de temperos que havia lá dentro.  Ao abri-lo vi temperos da Índia, do México, das arábias, da Rússia.  Bendita seja a globalização, e temperei o boi furiosamente com condimentos cujos nomes não posso revelar por questão de segurança, pois pronunciação dos mesmos pode provocar travamento ou nó permanente na língua.

A mudança no gosto da carne foi radical, e ― devo dizer ― cruel.  Foi como torturar um prisioneiro até conseguir dele uma confissão inventada.  Mas guerra é guerra, e às vezes temos que lançar mão de expedientes moralmente questionáveis para não sucumbirmos.

Mais recentemente nosso serviço de inteligência reportou que os bovinos irlandeses são dotados de capacidade cognitiva superior, e desconfiamos que os mesmos estejam deliberadamente provocando alteração no sabor de sua carne no fito de reduzir o consumo.  Assista este vídeo para ver do que são capazes as vacas esmeraldas.

Continua…

Volte na sexta, dia 9, para conferir a parte 2.