Nossa grande mãe

.
Por sobre o manto verde infinito
No olhar dos micos vigiando o mato
Bubuia de um jacaré pacato
Ou nas cores de um pássaro bonito

Nas águas a sumir no horizonte
No súbito levante dos biguás
No eclodir de novos tracajás
Tamanha é a riqueza dessa fonte

Na nuvem cinza de um céu de inverno
No desabotoar da tempestade
É água que cai com tanta vontade
No coração da Mãe, o cio eterno

Na nuvem de libélulas da aurora
No urro dos guaribas, poesia
São peixes na aquarela da alegria
Na graça com que a garça os devora

Está no vento forte e no banzeiro
Está no dente do maracajá
Está na boca azeda de araçá
Está no ar do macaco de cheiro

E mesmo no inseto carniceiro
Picada de cada carapanã
Irônico beijinho na manhã
Pra dele se lembrar o dia inteiro

No lento movimento da preguiça
E o movimento da preguiça é lento
No vento, aproveita o movimento
Que na simplicidade, enfeitiça

Pirarucu, bodó e embaúba
Cupuaçu, pitomba, bacuri
Tucunaré, uxi, apuruí
Taperebá, aruanã, munguba

São nomes que ecoam uma voz
De gente que soube viver a paz
Presente nessas matas ancestrais
Onde o querer de Deus encontra a foz

Em tudo isso está Deus que habita
Orquestra do existir, dança divina
Onde a Mãe Natureza é maestrina
Sempre a cantar a vida infinita

Começar uma grande revolução

Por aqui as relações entre as pessoas parecem ser mais íntimas.  Por uma série de aspectos que só a vivência em uma cidade chamada Tefé pode reunir, as pessoas tendem a ficar mais próximas umas das outras.  Mais amigas.  É como se todo mundo tivesse ao mesmo tempo aquela sensação de que ‘aqui, pra gente vencer na caminhada, a gente tem que estar de mãos dadas’.  Talvez a maioria das pessoas daqui nem perceba isso, mas aqueles que são naturalmente mais fechados percebem isso muito bem.  Eles percebem isso porque sentem que precisam se abrir mais para que possam desfrutar de uma existência sadia por aqui.  E na busca das raízes dessa defensividade eles podem começar a entender melhor onde estão suas vulnerabilidades mais agudas, e encontrar nelas as alavancas para começar uma grande revolução.

Agora eu vejo o que os índios viam

O céu das noites amazônicas sempre me fazem lembrar de uma coisa.  Em uma aula de Línguas Indígenas o professor nos passava um pequeno glossário com palavras da – se não me falha a memória – língua Ashaninka.  Ao ver que uma das palavras desse glossário significava, em português, “Via Láctea”, eu, que até meus doze ou treze anos sonhava um dia ser astrônomo, questionei quase que indignado: “mas, como fazem os índios para saber que existe uma galáxia, ou mesmo entender o que é uma galáxia?”  E o professor respondeu: “não, eles não entendem ‘galáxia’ como nós entendemos, mas eles sabem que existe uma faixa mais densa de estrelas no céu, e eles têm um nome pra isso.”  Naquele momento me flagrei me dando conta que eu mesmo não sabia nada dessa faixa mais densa de estrelas – que justamente nomeia a galáxia – e nunca a tinha visto.  A própria Via Láctea.  Agora eu vejo o que os índios viam.